WILHELM REICH

“A subjugação milenar da vida impulsiva criou solo para o temor psicológico das massas à autoridade e a submissão a esta, para a incrível humildade, de um lado, e a brutalidade sádica, de outro lado, e foi com base nisso que a economia de lucros capitalista dos últimos 200 anos pôde expandir-se e sobreviver. Que esta massa sofre de miséria inaudita, ela mesma a experimenta diariamente e a todo momento. O fato de querer dar a ela apenas pão, e não todos os prazeres da vida, fortalece a sua humildade. O cerne da felicidade da vida é a felicidade sexual. Nisso, pessoa alguma com algum peso político ousou tocar.”

 

“O amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida. Deveriam também governá-la.”

 

Wilhelm Reich, um psicanalista que incomodou a direita e a esquerda, a moral religiosa e a psicanálise de Freud. Em sua obra, psicologia é sempre política. E foi justamente isto que a Soma resgatou nas pesquisas reichianas, para torná-la a principal referência teórica de nosso trabalho.

Foi por meio da obra de Wilhelm Reich que a Soma confirmou as origens sociais e políticas da neurose. Nascido no final do século XIX, Reich foi responsável por uma das mais importantes revoluções da psicologia contemporânea, ao ampliar a compreensão dos fenômenos emocionais para além do campo estritamente psicológico, articulando-os com a sociologia e a política. Funcionando como um eixo central do nosso trabalho, a obra de Reich aparece na terapia tanto nas dinâmicas corporais próprias da Soma quanto na ênfase em abordar o comportamento individual em articulação com as formas de sociabilidade e interação que emergem no grupo.

Wilhelm Reich, desde jovem, aproximou-se de Sigmund Freud, ainda na fase de consolidação da Psicanálise. Tornou-se também um de seus maiores críticos e dissidentes. As divergências de Reich, que o levaram a afastar-se da Psicanálise, foram quanto às origens e aos procedimentos para se tratar a neurose. Reich defendia a tese de que uma pessoa é tornada neurótica por mecanismos sociais e políticos. Para ele, a neurose forma-se de fora para dentro, através do meio social autoritário e hierarquizado que impõe ao indivíduo, desde cedo, padrões de comportamento que vão moldando sua conduta. Este processo ocorre por meio de um conjunto de regras e normas, na maioria das vezes de forma sutil e dissimulada, mas que vai gerando um ajustamento e a diminuição do poder crítico nas pessoas. Reich afirmava categoricamente que, enquanto existir qualquer espécie de regulamentação moral, social ou política limitando a autonomia das pessoas, não se poderá falar em liberdade real, nem muito menos em saúde emocional.

Além de ser produto de mecanismos sociais, a neurose se instala em todo o corpo e não apenas na mente. Com isso, Reich traz para a psicologia uma nova e importante vertente, na qual o corpo passa a ser utilizado como diagnóstico (através da leitura corporal) e local da ação terapêutica (através dos exercícios corporais). Reich defendia que é um desequilíbrio energético o que causa a neurose. Essa energia passou a ser designada de modos diferentes, mas com o mesmo significado: bioenergia, energia orgônica ou energia vital.

A distribuição defeituosa e imprópria da bioenergia, principalmente na musculatura voluntária, leva à formação do que ele veio a chamar de couraça neuromuscular do caráter. Reich observou que emoções e pensamentos têm sempre equivalentes físicos, e vice-versa. Uma emoção traz consigo mudanças na circulação da bioenergia, relacionadas a contrações musculares localizadas e modificações na respiração e na postura física. Assim, se um indivíduo for submetido, desde a infância, a contínuas situações de medo ou insegurança, por exemplo, as transformações fisiológicas naturais, em vez de circunstanciais, tendem a se cristalizar e a se tornar crônicas de forma inconsciente. Aquilo que deveria acontecer em situações específicas torna-se contínuo na vida da pessoa, criando-se, então, uma estrutura muscular e postural característica que determina o seu jeito de estar no mundo: o seu caráter, numa relação direta entre corpo e emoção. Para Reich, a couraça neuromuscular do caráter é a materialização corporal dos traços de comportamento e atitudes emocionais do indivíduo, tornando-se uma espécie de corporificação do inconsciente.

Reich evidenciou que, para se tratar a neurose, era necessário atuar também sobre o corpo, a fim de eliminar a tensão crônica da couraça. Na Soma, trabalhamos com exercícios corporais próprios que atuam sobre a couraça neuromuscular, buscando dissolver suas tensões crônicas, liberando a energia vital que estava sendo desperdiçada e tornando-a disponível para o ato de viver. Os exercícios bioenergéticos, além de produzirem uma boa circulação energética, também possibilitam a consciência corporal e a consciência de si próprio, bem como a identificação dos bloqueios. Ao mesmo tempo, o entendimento dos mecanismos emocionais e psicológicos, junto com a percepção ética e política, é desenvolvido na dinâmica de grupo autogestiva no decorrer da terapia.

Sugestão de leitura

A Função do Orgasmo — Wilhelm Reich. São Paulo: Brasiliense, 1984.

A Revolução Sexual — Wilhelm Reich. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

Análise do Caráter — Wilhelm Reich. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Escute, Zé Ninguém! — Wilhelm Reich. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

Psicologia de Massa do Fascismo — Wilhelm Reich. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Wilhelm Reich e Saberes Insurgentes — João da Mata (org.). São Paulo: Summus Editorial, 2024.

Leia a cronologia de vida e obra de Wilhelm Reich

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