CAPOEIRA ANGOLA
“Capoeira angola, mandinga de escravo em ânsia da liberdade. Seu princípio não tem método e o seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista. Capoeira é amorosa, não é perversa. Ela é um hábito cortês que criamos dentro de nós, uma coisa vagabunda.”
A capoeira angola foi uma arma fundamental na libertação dos escravos e é hoje elemento essencial no trabalho da Soma. O potencial bioenergético de seus movimentos de ataque e defesa, aliado à capacidade de despertar no praticante o enfrentamento necessário à luta contra a neurose, fez da capoeira angola um importante campo de pesquisa para a Soma. Mistura de dança, luta, teatro e jogo, seu universo amplo e expressivo resultou no livro A Liberdade do Corpo – Soma, capoeira angola e anarquismo, de João da Mata.
Sua entrada no contexto terapêutico da Soma também tem sido objeto de investigação acadêmica. No Doutorado em Psicologia pela UFF/RJ, da Mata ampliou sua pesquisa na tese A arte-luta da capoeira angola e práticas de liberdade.
A Liberdade do Corpo
A capoeira angola constituiu-se como uma forma de resistência dos negros escravizados frente à opressão, incorporando dimensões étnicas, culturais e religiosas africanas em seu desenvolvimento histórico. Ao longo de mais de três décadas de pesquisa sobre a utilização terapêutica na Soma, destacamos seu papel social e político no processo de luta antiescravista, caracterizando-se como prática de enfrentamento e afirmação da liberdade.
A criação da Soma insere-se nesse horizonte, configurando-se como uma proposta terapêutica voltada aos processos de libertação em contextos opressivos. Surgida durante a ditadura civil-militar brasileira (1964–1985), a Soma foi uma resposta a um período marcado por repressão, censura, prisões, torturas e exílio daqueles que se opunham ao regime.
Na atualidade, o autoritarismo manifesta-se de forma mais sutil no contexto da democracia neoliberal, por meio de mecanismos difusos de controle que produzem a redução progressiva da autonomia e da capacidade crítica dos indivíduos. Deste processo, surgem sujeitos dóceis e passivos, resultado de um processo iniciado na infância e reforçado por práticas pedagógicas alienantes, tanto no âmbito familiar quanto escolar.
Tanto na Soma quanto na capoeira, o corpo ocupa lugar central. Historicamente, o povo negro utilizou o corpo como instrumento de resistência frente à violência e à dominação, resgatando sua potência corporal como forma de luta e defesa. De modo semelhante, a Soma busca restituir esse vetor de ação como meio de enfrentamento às práticas autoritárias do capitalismo neoliberal.
No âmbito terapêutico, a capoeira angola tem sido integrada às práticas da Soma por meio de seus movimentos, cantos e jogos, utilizados nas sessões de terapia. A análise das sensações e percepções dos participantes evidencia que o trabalho corporal com a capoeira contribui de forma significativa para a construção do processo terapêutico somático.
Sugestão de leitura
A Liberdade do Corpo: Soma, Capoeira e Anarquismo - João da Mata, São Paulo: Imaginário, 2011.
A Arte-Luta da Capoeira Angola e Práticas Libertárias - João da Mata: Tese de Doutorado emPsicologia/UFF.