ANTIPSIQUIATRIA
Sabes que tens
toda a liberdade para ir, querido;
não te preocupes
se começo a chorar.
do romance Lie Down in Darkness, de W. Styron
O diálogo acima evidencia a sutileza de mensagens paradoxais situadas entre a autonomia individual e o receio de magoar quem amamos. O impasse é claro: seguir adiante e correr o risco de ferir alguém próximo ou abrir mão de projetos e desejos pessoais para não magoar quem amamos, à custa da própria frustração.
Os estudos da comunicação humana desenvolvidos pelos antipsiquiatras constituem uma contribuição científica original para a compreensão das relações de poder, especialmente no plano micropolítico das relações afetivas. Embora formuladas na segunda metade do século XX, essas pesquisas foram amplamente negligenciadas pela Psicologia.
Em 1956, Gregory Bateson e sua equipe, na Universidade de Palo Alto, publicaram o estudo “Sobre uma Teoria da Esquizofrenia”, onde introduziu o conceito de “duplo vínculo”. A pesquisa identificou, em famílias de esquizofrênicos, padrões recorrentes de comunicação ambígua, apontando o duplo vínculo como fator relevante na gênese da esquizofrenia. Trata-se de uma manobra frequente nas relações sociais, cujo efeito tende a se intensificar quanto maior for o vínculo afetivo entre os envolvidos.
A noção do duplo vínculo como dispositivo comunicacional implicado nos processos de neurotização e dominação atualiza as teses de Wilhelm Reich, segundo as quais os conflitos emocionais derivam de mecanismos sociais e políticos que interferem na autonomia e espontaneidade dos indivíduos. As contribuições da Antipsiquiatria evidenciam como a comunicação paradoxal opera nos processos de manipulação emocional, sobretudo em vínculos amorosos.
A eficácia do duplo vínculo decorre de seu uso recorrente nas relações familiares e afetivas, associado ao amor — um dos sentimentos mais potentes da experiência humana — ao controle e jogos de poder. Assim, além do medo da violência física, sociedades hierarquizadas lançam mão da chantagem afetiva e da comunicação paradoxal como instrumento de autoridade. Para a Soma, o estudo do duplo vínculo torna-se fundamental, pois permite compreender, no plano microssocial, os mecanismos de poder presentes nas relações amorosas, em que o amor pode converter-se em instrumento de dominação cotidiana.
O duplo vínculo caracteriza-se pela emissão de mensagens contraditórias, nas quais os enunciados se anulam mutuamente. Pode ocorrer por meio de diferentes canais de comunicação — como afirmar algo verbalmente e negá-lo pela expressão facial — ou em um único canal, quando há contradição entre o conteúdo da fala e sua entonação. Mensagens desse tipo tendem a gerar confusão, culpa e dependência, podendo, em casos extremos, comprometer a distinção entre realidade e fantasia. A investigação do duplo vínculo no cotidiano dos grupos constitui, assim, um ponto de partida para reorientar práticas de interação, substituindo comunicações ambíguas por formas de fala mais francas, diretas e cuidadosas.
Sugestão de leitura
Pragmática da Comunicação Humana: Um Estudo dos Padrões, Patologias e Paradoxos da Interação - WATZLAWICK, Paul; BEAAVIN, J. H. & JACSON, D. D., São Paulo: Cultrix, 2007
Sugestão de filme sobre o tema
Family Life - Direção de Ken Loach: Anglo-EMI Film Distributors; Kestrel Films, 1971. 1 DVD (108 min), son., color.