ANARQUISMO
é a escravidão o pior dos males, Marx, e não a pobreza.
podemos obrigar os homens a serem livres, no sentido em que se pode obrigá-los a agirem racionalmente ou, em todo o caso, evitando que ajam de modo desatinado.
uma liberdade imposta não é digna desse nome.
Trecho do livro “Diálogo Imaginário entre Marx e Bakunin”, de Maurice Cranston, Ed. Imaginário
Para a Soma, o Anarquismo está presente como ética que norteia sua metodologia e processo terapêutico. Nossa compreensão do conflito emocional, ancora-se a certeza de que a neurose é um produto das sociabilidades hierarquizadas, pautadas no medo e sujeições. Relações em que o princípio de autoridade se reproduz de maneira mais ou menos explícita em todas as esferas da convivência social (família, vínculos amorosos, trabalho, meio social como um todo) interferindo nas atitudes, comunicações e percepções da si.
A ética anarquista, baseada no respeito às singularidades e na solidariedade social, é explicitada na Soma como aposta de vida saudável, afirmativa e antiautoritária. Ao romper com a dicotomia da política tradicional entre esquerda e direita, e propor uma nova perspectiva política, a Soma vê o Anarquismo como a ideologia do prazer que combate e resiste a ideologia do sacrifício, amplamente difundida não só pelo neoliberalismo, mas também nos cânones do marxismo e da psicanálise, duas teorias arraigadas no imaginário do senso comum.
Não dá para continuar esperando o “paraíso socialista”; nem permanecer acreditando que há uma natureza humana antissocial ou uma pulsão de morte. Na Soma é frequente encontrarmos comportamentos inspirados nestes determinismos, que justificam o conformismo, a inércia, a submissão, o ceticismo, todos com rigidez ideológica ancorada no sacrifício do prazer e da liberdade.
Nos grupos de Soma, temos experimentado uma dinâmica de grupo numa perspectiva autogestiva, procurando construir um processo terapêutico onde o grupo represente um micro laboratório social. Esta estratégia torna o processo terapêutico rico e dinâmico, favorecendo o reconhecimento dos conflitos emocionais a partir de uma investigação pessoal, associada ao entendimento de como agimos no social. Mais do que discutir a teoria anarquista, procuramos viver a prática de um processo libertário, incentivando a busca do consenso, a abolição das lideranças fixas, a comunicação limpa de jogos de poder, a solidariedade em vez da competição. Experimentações que servem como formas de trazer para o cotidiano reformulações de nossas práticas de vida.
Sugestão de leitura
Anarquia e Anarquismos: Práticas de Liberdade entre Histórias de Vida - Organizado por José Maria C. Ferreira, João da Mata e Juniele Rabêlo. (Brasil Portugal): Rio de Janeiro: Nau Editora, 2021.